A arena da maternidade

A maternidade torna-me mais criativa, pois aguça-me a capacidade de recriar o meu mundo todos os dias…

Muitas mulheres que estão e passaram pela minha vida, desde tenra idade, diziam querer ser mães quando crescessem.
Eu, pelo contrário, não sentia “o apelo” pela maternidade.
A ideia de gerar um ser completamente dependente de mim, assustava-me imenso.

Sentia que tinha tantos medos, que nunca estaria preparada para educar e criar uma criança pelo caminho da vida. Como diria a um filho: não tenhas medo do bicho papão – se eu própria ainda evitava o confronto com ele.

Tenho uns pais maravilhosos, a quem devo muito, mas que por me quererem tão bem, sempre me protegerem muito.
Essa superproteção aliada à minha ansiedade, não facilitou muito a minha entrada na vida adulta e na tomada das rédeas da minha vida.

No entanto, após alguns anos de vida em comum com o meu marido, tive a certeza que queria ter filhos com este homem maravilhoso, que tanto amo, que tanto me tem ajudado no caminho e nunca me deixa cair.
A minha filha foi muito desejada e é muito amada, ainda assim não tenho qualquer pudor em dizer que é uma das maiores arenas de confronto da minha vida.

Quando nos tornamos mães, tudo na nossa vida passa a ser diferente de imediato. Aliás, arrisco dizer que desde que soube que estava grávida, a minha vida nunca mais foi a mesma. Já estava a gerar um ser a quem, para sempre, estaria ligada. Para o melhor e para o menos bom. Se a ideia me apaixonava, também me amedrontava bastante.

Seria isso a formulação de um caráter mais maturo e responsável?

A maternidade torna-me mais vulnerável e de formas que antes nunca pensei acontecerem. Desafia-me em permanência e desvia-me a atenção e o tempo de outras coisas, incluindo de nós próprios. É mais uma grande variável, com sub-variáveis correlacionadas e interdependentes, com um domínio infinito de acontecimentos e soluções.

Ou seja, é uma variável cujos desafios geram infinitas propostas de solução. Interiorizando que se trata de um desafio permanente, com soluções imprevisíveis e nem sempre coerentes ou recorrentes, só pode correr bem .

A maternidade cria-me sentimentos de insuficiência e muitas oportunidades para me sentir tolhida, zangada, ressentida, magoada e, por vezes, pouco importante ou mesmo insignificante. Desafia a minha POC, mais vezes do que gostaria.
Também sentes isto? – partilha para que possamos gerar um fórum de “desabafo” sobre as nossas oportunidades de entreajuda.

ESTÁ TUDO BEM…

Porque a maternidade também me dá a oportunidade de querer fazer e fazer mais e melhor, de ser melhor pessoa, de colocar outros interesses acima dos meus, de me querer transcender.
É também por causa da maternidade, que não paro de buscar formas de viver com mais equilíbrio e plenitude.

Quando temos filhos ficamos em contacto com a vida de uma forma completamente diferente. Mais responsável, mais astuta e desperta. Isso torna-nos mais atentas, mais intuitivas e com uma relação causa / efeito mais ágil e criativa.
Com a maternidade dou por mim a sentir-me ligada à esperança e à dor de outras maneiras que antes não sentia. Às vezes mais angustiante, às vezes mais impotente, mas sinto para além de mim. Também sinto o Amor de alguém que é a minha maior critica e admiradora simultaneamente.

Mantém-me firme, faz-me sorrir todos os dias.

A minha filha faz-me querer ser mais compassiva, empática e determinada.
Ser mãe também é reconhecer em alguém a plena capacidade de alterar, subitamente, as minhas emoções, vontades e necessidades. É estranho, mas é precioso para quem, como eu, vivia com a uma falsa consciência de pleno controlo.

Por vezes sinto, que a maternidade pode estar no limbo caos total. Atualmente não consigo classificar o que sinto nesse limbo de um equilíbrio emocional que é alicerçado num desequilíbrio eminente. Concomitantemente, empurra-me para viver de uma forma mais consciente. Essa nova exigência, que surgiu há mais de 10 anos, ajuda-me a ver e aceitar o meu papel de mãe como se me apresenta e, a mim mesma, com maior consciência sobre as circunstâncias e autoconhecimento.

A maternidade pode ser de facto desafiante, mas se aceitarmos esses desafios de coração e mente abertos, podemos e atrevo-me a afirmar que devemos usar todas os desafios que surgem com os nossos filhos para destruir ou reposicionar todas as barreiras da nossa mente e do nosso coração, para nos vermos em alta definição, para estarmos de forma mais efetiva e tranquila presentes para eles.

A minha consciência e o meu autoconhecimento permitem-me partilhar que entendo que a maternidade deve assumir-se como um desafio de muito longo prazo, por isso deve ser “corrido” de forma tranquila, bem respirada, sem sprints ou excessos e a um ritmo emocional no qual nos sintamos confortáveis (sim, porque não temos todas o mesmo estofo emocional e físico). É bom que saibamos que a nossa capacidade fica e emocional pode e, se me permitem, devem ser treinadas para que acompanhem as exigências crescentes da maternidade.

ESTÁ TUDO BEM…

@orlanda_sampaio

Comments

  1. Carlos Monteiro

    Adorei o artigo, sou homem mas senti as palavras na mesma, pois ser pai de facto, também é um pouco como ser mãe, com as devidas distâncias. Os filhos são o nosso maior projeto, mas é um projeto ao qual sinto que devemos indicar caminhos, mostrar caminhos, mas nunca criar o caminho pelos filhos… Isso deve ser feito por eles.

    1. admin.123

      Olá Carlos.
      Fico feliz que te tenhas identificado com o artigo.
      A parentalidade é transversal a mulheres e homens e as dificuldades são sentidas por ambos, bem como todas as recompensas emocionais dai provenientes.
      Concordo contigo, também considero a parentalidade o nosso maior projeto de vida.
      ESTÁ TUDO BEM…
      @orlanda_sampaio

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