Somos, felizmente, mais do que rótulos!

Em alguma situação das nossas vidas, já alguém nos pediu para nos definirmos enquanto pessoas. Confesso, é algo que ainda não me sinto muito à vontade para fazer – definir-me como pessoa – mas consigo fazê-lo com mais facilidade do que há alguns anos atrás.

A prática contínua e resiliente da tolerância ao desconforto, quer causado pela exposição ao julgamento dos outros quer ao meu próprio – sim, porque muitas vezes nós somos os nossos maiores críticos – tem ajudado substancialmente.

Diz-me a experiência, e os relatos das mulheres com quem tenho falado, que, quando temos que nos definir, normalmente, nos escudamos em respostas que pouco dizem acerca da nossa verdadeira essência – sim, é uma questão de essência e propósito objetivo e esclarecido. Utilizamos respostas como: Sou mãe, esposa, dançarina, estudante, médica, advogada, blogger, estudo na universidade X, gosto de chocolate, moro em tal sitio, tenho x filhos, etc..

Podemos até falar um pouco do trajeto da nossa vida, mas não aprofundamos muito mais que isto. Algumas vezes porque, nós próprias, já nos escudámos nestes rótulos circunstanciais , afastando-nos de quem somos verdadeiramente – mais uma vez, da nossa essência e do nosso propósito.

ESTÁ TUDO BEM… ,estes rótulos fazem parte do nosso caminho, da nossa história e foram construídos por nós, completam-nos. Ainda assim, acredito que não definem a nossa verdadeira essência.

Mas, realmente “mau”, são os rótulos que adquirimos porque a determinada altura, alguém – os críticos desta vida – ou até o nosso critico interno, pensou que determinada característica, ou forma de agir, fazia parte de quem somos, quando não correspondia de todo à verdade. O perigo reside no facto, de tanto o ouvirmos, passamos a acreditar, passa a ser parte de nós.

Esses rótulos, se lhes dermos essa oportunidade, capturam a nossa autenticidade e condicionam a vontade e motivação para vivermos de forma sincera, geralmente não acrescentam nada de positivo a quem somos, não nos deixam crescer e tão pouco refletem a nossa verdadeira história ou, mais grave, a nossa vontade.

Dou o meu exemplo, como sempre:

Durante muitos anos, acreditei que não era normal porque tinha pensamentos intrusivos que, por ignorância ou inexperiência, achava que mais ninguém tinha – como se de facto isso importasse. Consequentemente vieram os sentimentos de escassez e vergonha.

Foram necessários anos de trabalho interno assistido – com uma terapeuta – para me libertar desse rótulo que eu própria me impus e “colei” a mim.

Relativamente aos restantes rótulos que são atributos ou condições permanentes, ou que pretendo perpetuar – os reais, ou seja, que estão de acordo com a minha vida presente e passada – tenho muito orgulho neles, como por exemplo, ser mãe, esposa, blogger, gostar de ler e escrever, mas sou muito mais que isso, não nasci com eles.

A determinada altura da nossa vida, tendemos a pegar em algum destes rótulos para nos ancorarmos – é cómodo – pois, com algum deles, nos sentiremos mais conectadas, com maior sensação de aceitação e pertença.

Impõe-se a pergunta:

Quem éramos nós verdadeiramente antes de deixarmos que estes rótulos se colassem a nós?

Não nascemos esposas, mães, profissionais, a gostar disto ou daquilo. Nascemos simplesmente Seres Humanos, sem noção de rótulos ou listas de atributos que nos correlacionam com os outros.

Temos o dever e o direito de encontrar o nosso lugar no mundo simplesmente pelo que somos e não pelo que fazemos, possuímos, compramos ou construímos ao longo da nossa vida.

O maravilhoso caminho da vida, as nossas escolhas e o nosso crescimento enquanto Seres Humanos, deve servir para nos tornar pessoas melhores, podem até servir para nos redefinirmos, mas nunca para nos anularmos e aceitarmos sermos um esboço ou apêndice ou prolongamento de outra(s) pessoa(s) ou situações.

Merecemos ser reconhecidas e amadas pelo que somos, livre de rótulos ou títulos.

O que responderíamos, se simplesmente alguém nos perguntasse para nos definirmos sem recorrer a rótulos, ocupações ou títulos? – resposta difícil? – concordo em absoluto!!!

Deixamos que os rótulos se colem à nossa pele e ao âmago do nosso ser, só porque é mais fácil e menos arriscado, porque dá jeito e porque, a determinada altura, nos habituámos a eles como se sempre tivessem feito parte de nós – são pontes sociais que se confundem connosco.

Por vezes dou por mim a justificar o que digo, ou penso, com a premissa:

_ “Como mãe, penso que…”

_ “Como esposa, sei que…”

Tenho necessidade de utilizar o rótulo, porque sinto que valida a minha opinião sobre determinado assunto. Não deveria ser assim…

Podemos fazer muito melhor. Conquistámos o nosso direito de ser, falar e de nos expressarmos utilmente, unicamente porque existimos.

Sabes porque não tive coragem de lançar este Blog há mais tempo?

Simplesmente porque acreditava – crenças limitadoras – que poderia não interessar aquilo que tenho para dizer ou partilhar, que ninguém iria querer ouvir, ler ou pensar comigo.

Agora sabes o que penso: Tretas! Não quero saber! Esta é a minha verdade, esta é quem eu sou, o que os outros fazem, ou não fazem com a minha partilha, não é, de todo, um problema meu.

Faço isto por mim! Porque acredito que pode ajudar e inspirar outras pessoas, tal como outros já fizeram e continuam a fazer comigo. Ao fazer isto não estou só a disponibilizar-me para o mundo mas também a abrir-me a outros conhecimentos e experiências.

Rótulos à parte, considero-me uma eterna aprendiz e uma lutadora por mim própria – claro que acredito e apoio outras causas, mas só o conseguirei fazer em pleno, se isso fizer parte do meu propósito.

É claro que os rótulos, acrescentam valor e experiência à nossa vida – a não ser que sejam pejorativos ou difamatórios, xenófobos, elitistas, sexistas etc.. – Foram e são conquistas e perdas ao longo do caminho, mas não devem definir-nos.

A vida está constantemente a dar-nos oportunidades maravilhosas de reconexão com o que somos genuinamente, de nos livrarmos de armaduras e rótulos que serão sempre constrangedores e de definição bastante limitadora para as reais circunstâncias – pegam ou agarram-se a partes publicas ou visíveis. A vida dá-nos, tantas vezes, espaço para nos reconectarmos ao que somos e a quem queremos ser, mas nem percebemos os sinais, estamos demasiado coladas aos rótulos que já tomámos como verdadeiros e genuinamente nossos.

Fica atenta, pergunta a ti própria: o que me define ?

ESTÁ TUDO BEM…não tenhas medo das respostas!

@orlanda_sampaio

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