Tenho medo de estar feliz !

Vou partilhar contigo sobre o medo que tenho de estar feliz, provavelmente vives a sentir o mesmo– eu… sou invadida por este sentimento muitas vezes – e pensas que mais ninguém sente o mesmo, ou que tens um qualquer problema psicológico/emocional mal resolvido, pois tens medo quando as coisas na tua vida estão a correr demasiado bem.

Se sentes isto, podes respirar de alívio, ESTÁ TUDO BEM…, és única, mas não és a única a ter este sentimento.

Utilizo a palavra demasiado, não porque a felicidade ou alegria devam ser quantificadas, mas sim, porque tendemos a fazê-lo sempre que nós e todos os que amamos estão bem de saúde, temos o emprego que ambicionámos, fazemos o que nos apaixona, os nossos relacionamentos afetivos correm bem, os filhos não nos dão grandes chatices e são o melhor que a vida nos podia dar, temos uma vida financeira estável, enfim, a vida tal como a conhecemos decorre sem grandes sobressaltos.

De repente um sino toca na nossa cabeça como que a querer dizer-nos:

– Estás a relaxar!

– Tudo está a correr demasiado bem, contém um pouco o entusiamo e a alegria, porque o perigo está à espreita!

Quanto a mim, digo que é quase como uma punição, como se não merecesse ser feliz.

Com algumas das dicas que te vou dar mais à frente, confesso que tem ajudado bastante, mas não há receitas milagrosas, tudo requer da nossa parte, prática, consistência, resiliência e viver a vida de forma muito consciente.

Acredito que podemos viver a vida que quisermos, desde que o façamos com convicção, empenho, perseverança, autocompaixão, coragem, aceitação para enfrentar todos os insucessos e rasteiras que a vida nos possa colocar e muito amor, por ti, para ti, pelos outros, para os outros, pelos teus valores e pela Vida. No meu caso acrescento ainda muita fé!

Quando estes pensamentos chegam, agora cada vez com menos frequência, sinto um frio na barriga, uma náusea, um disparo de coração. E aí começam as minhas conversas internas.

– Não sejas parva! Tu mereces tudo de bom que a vida tiver para te dar! A vida não tem de ser sofrimento…mereces ser feliz como qualquer outra pessoa, blá-blá-blá, blá-blá-blá….

Estás a reconhecer a sensação e o diálogo? Pois, eu sei, é tramado!

Segundo o que aprendi na gestão da minha ansiedade, as discussões internas, também conhecidas como auto- apaziguamento, são lixo qualificado que não contribuem em nada para nos ajudar, pelo contrário, ainda dão mais força ao que estás a sentir ou a pensar.

Pensa comigo: quanto mais tentas justificar um determinado pensamento, mais dizes ao ter cérebro que muito provavelmente ele tem razão.

Não dês conversa! É difícil, eu sei, como já te disse é uma questão de prática. O Mindfulness ajuda-nos muito a conseguir distanciarmo-nos dos nossos pensamentos e a olhar para eles como se fossem nuvens de passagem. Mas, sobre isto falarei mais detalhadamente noutro artigo.

Ainda que o apaziguamento possa resultar no imediato, depois de passado algum tempo volta sempre o famoso E SE?

E se… perco o emprego?

E se… fico doente?

E se… algum dos que amo adoece gravemente?

E se…o meu marido/namorado/companheiro deixar de me amar?

Quantas vezes já deste por ti a contemplar os teus filhos enquanto dormem e a pensar como são perfeitos e maravilhosos, sentes uma onda de amor imensa, e de repente…estremeces de medo de que algo de terrível possa acontecer?

ESTÁ TUDO BEM…acontece com quase todas nós.

Como já te disse sou fã da investigadora de emoções Brené Brown, inclusive já fiz terapeuticamente o seu programa “Daring way”, li todos os seus livros publicados e tento acompanhar de perto o seu percurso.

Isto para te dizer que segundo Brené a sensação de alegria precedida do mau presságio, não é mais do que uma forma de escudo para nos proteger da vulnerabilidade. Pois é…outra vez a vulnerabilidade!

Que isto te sirva de consolo, é um comportamento coletivo.

Esta investigadora explica que o que sentimos é fruto da sociedade capitalista em que vivemos baseada na cultura de escassez.

Ou seja,

Parece que nunca nada é suficiente para nós, não temos roupa suficiente, comida suficiente, amor suficiente, sucesso suficiente, tempo, viagens, amigos, likes, etc.

Por isso, o sentimento produzido por essa roda viva é a alegria parecer sempre uma coisa com um sabor amargo e pouco duradoura.

Porque isto nos acontece?

Porque estamos a tentar vencer a nossa vulnerabilidade à força, sacrificando a alegria para evitar a dor.

Uma vez que para nós, sentir alegria é uma forma de exposição à vulnerabilidade, sempre que a sentimos recebemos alertas internos de que estamos a ficar expostos à dor e áquilo que não conseguimos controlar.

Como não queremos ser surpreendidos pela dor, enxotamos a alegria e fazemos ensaios macabros sobre coisas terríveis que possam acontecer, na ânsia de estarmos preparados.

Eu já pensei tanta coisa absurda, que nem me atrevo a reproduzir.

Eu já aprendi, não adianta desperdiçar momentos plenos de alegria, porque nunca estamos preparados para a dor!

Qual o antidoto para isto?

É muito simples e só depende de nós.

Se o oposto da escassez é entender que temos o suficiente, então, praticar a gratidão é a forma de reconhecermos que já temos o suficiente e que nós somos suficientes.

Praticar a gratidão é a porta de entrada para aceitar a alegria e o prazer.

Temos de praticar a gratidão mesmo nos piores momentos da nossa vida. Eu sei, parece absurdo, mas acredita é possível e resulta, mesmo!

Por exemplo:

Relativamente à doença do meu marido:

É muito penoso para mim, tenho muito medo de vê-lo sofrer e em última instância que a doença o leve de mim, mas sou grata, porque os últimos 6 anos foram os melhores do nosso relacionamento, se o meu marido não tivesse ficado doente, muito provavelmente não teríamos vivido o que vivemos durante estes 6 anos, porque ele tinha uma vida profissional muito absorvente e passava muito pouco tempo em casa.

Relativamente ao facto de viver com POC (Perturbação obsessivo-compulsiva) :

É uma luta quase diária com a minha mente, atrapalha-me a vida muitas vezes, mas sou grata porque tive a oportunidade de aprender a geri-la, se não fosse a POC muito provavelmente não teria iniciado o caminho de autoconhecimento que tenho feito até agora e também não teria iniciado este projeto que tanta realização pessoal me tem proporcionado.

A gratidão ajuda-nos a relativizar a dor e a livrar-nos da culpa.

Quando mandamos o nosso filho sozinho para a escola pela primeira vez:

Estamos a morrer de remorsos, mas ajuda pensar: Sou grata, porque o meu filho é autónomo o suficiente para ir sozinho para a escola.

No início da prática, tudo isto vai soar falso, mas ESTÁ TUDO BEM…, não desistas de praticar, sê grata. Verás que com o tempo começa a resultar.

A dor é inevitável e pode surgir nas nossas vidas sob as mais variadíssimas formas e quando menos esperamos, mas não é fugindo da alegria que estaremos preparados para ela, mas sim vivendo a nossa vida a prestar atenção nas coisas mais simples e a praticar a gratidão.

ESTÁ TUDO BEM…

Não precisamos de perseguir feitos extraordinários para encontrar a felicidade, por vezes é na adversidade que conseguimos encontrá-la. Sê grata, estás viva!

@orlanda_sampaio

Comments

  1. Patrícia Fernandes

    Uma vez disseram-me que era um “mal” característico dos cristãos… porque nunca se sentem merecedores…
    Deu-me muito que pensar. Ainda dá.
    Bjs

    1. admin.123

      Minha querida amiga,
      Não é um “mal” unicamente dos cristãos, mas um “mal” coletivo.
      Acredito que se quisermos mesmo, conseguimos reverter este sentimento.
      Eu tento, confesso que nem sempre consigo.Mas não desisto!????
      Beijos ????

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